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My cup of tea

"You can never get a cup of tea large enough or a book long enough to suit me" C. S. Lewis

My cup of tea

"You can never get a cup of tea large enough or a book long enough to suit me" C. S. Lewis

Porque é que escrevo num blog?

Porque se não escrevesse num blog, haveria de o fazer noutro sítio qualquer. Num bloco de notas. Ou nas últimas folhas do caderno de uma cadeira qualquer. Ou num documento word. E guardaria tudo, fechado a sete chaves, numa gaveta, ou numa pen, longe dos olhares indiscretos. Mas escreveria, o que quer que fosse. Porque não consigo viver sem escrever. Mesmo que fique bastante tempo sem escrever, na volta, pego em qualquer coisa e ponho-me a debitar palavras. Às vezes, assim, à toa. Nunca percebi este mecanismo, que se desencadeia em mim, mas me organiza a mente. Escrever é a minha forma de encaixotar a vida. E é também a minha forma de me sentir mais feliz. A sério. Não sei bem porquê. Como se escrever fosse assim uma coisa fabulosa. Para mim, é.

E lembro-me que isto já vem de há tanto tempo. Escrevendo o que quer que fosse. Lembro-me que houve uma fase, nessa ilusão remota de que para se ser escritor tem que se apenas e somente debitar palavras. Quis ser escritora. (Quem é que eu quero enganar?! Ainda quero… Ainda vivo nessa ilusão infantil). Tinha 13 anos. Se calhar, 12. E meti isso na cabeça. Escrevi um texto enorme, tipo ficção. Era o meu livro. Uma vez, a tentar transferi-lo de um computador para o outro, ou para uma pen, não sei bem, perdeu-se para todo o sempre, de uma forma incontornável. Chamava-se A Janela por onde entra o luar. Meio poético, meio tolo. Senti a maior frustração da minha vida. Ainda tentei escrevê-lo de novo, mas já não consegui. Lembro-me que escrevê-lo era uma descoberta, cada parágrafo, cada página, uma descoberta que eu própria fazia, sem saber muito bem até onde é que as personagens me podiam levar. Tentar escrever de novo uma coisa que já tinha sido escrita, fazia desaparecer grande parte daquele encanto. Peguei noutro documento word e escrevi outro texto, igualmente com proporções bastante maiores do que o suposto para um simples texto. Também lhe chamei livro. Ou se calhar, não. Já não sei se tive coragem para tanto. Tinha 13 anos na altura em que escrevi esse texto. Ainda o tenho e acho que há-de ficar. Tremo com uma certa vergonha alheia cada vez que o leio. Envolto em todo um dramatismo, e em palavras enroladas umas nas outras, muitas palavras que complexificavam o que era simples. Um exagero de palavras e coisas complicadas. Dentro de um enredo infantil. Mas depois, lembro-me, caramba, tinha 13 anos. Não ia escrever, de certeza, um Nobel. Voltei a embarcar na aventura de escrever outro texto. Mais ou menos na mesma altura em que escrevi os outros dois. Esse nunca acabei. E tenho pena, porque não sei como acaba, o que é feito das personagens e da vida daquela gente. Já não o posso acabar, porque a pessoa que o começou já não é a pessoa que eu sou agora. Se lhe pegasse, só para consumo próprio, só para me divertir um bocado, dava-lhe uma volta muito grande e tirava-lhe aquela essência infantil e ingénua. No fundo, bonita, a seu jeito. Tenho mais uns textos perdidos, mais umas coisas, na maioria ficção, outros gritos mudos de uma adolescente incompreendida (quem nunca?). Vai na volta, escorrego por eles. Os textos. Leio aquelas palavras que já foram minhas e que agora me são completamente distantes e tão pouco minhas.

É por isso que escrevo. Porque não concebo viver de outra forma que não a datilografar a vida. Minha ou de outra gente qualquer. Mesmo que seja uma escrita pobre, uma coisa sem jeito, que só eu percebo e só eu entendo. Sinto-me feliz, tão imensamente a fazê-lo. Catapultá-lo para o blog foi só dar, se calhar, uma vertente mais narcisista à coisa. Gritar ao mundo, olhem aqui o que eu escrevi. E esperar que o mundo me oiça, não me devolva as palavras e vá tão simplesmente á sua vidinha.

Escrevo também para um dia olhar e ver o que vivi. O que passei. O que pensei. Sei lá. Temos uma memória tão vaga, tão preenchida de lacunas. No fundo, um blog é um registo. Se calhar, daqui a uns anos vou ler o que escrevi e agradecer mentalmente por ter tido a ideia iluminada de o deixar em anónimo e ninguém saber que fui eu que escrevi aquelas palavras que, na altura, me hão-de dizer tão pouco.

Vamos falar de doenças mentais

Quando alguém parte uma perna, olhamos para a perna engessada e perguntamos como tem passado, se a perna dói muito ou é coisa mais ou menos suportável, como foi que aquilo lhe aconteceu e em quanto tempo vai passar.

Quando alguém tem um cancro. Seja lá onde o bicho se esconder, num pulmão, numa mama ou numa próstata, há de haver sempre gente, que se vai condoer. Caramba, ninguém merece ter um cancro.

Quando alguém tem esclerose lateral amiotrófica, ou qualquer outra doença degenerativa, olhamos e vemos a morte a aproximar-se lentamente. Abanamos a cabeça e dizemos Coitadinho, não merecia.

Quando alguém tem uma depressão. Há silêncios vários. Gente que olha de lado e tenta compreender, mas não compreende. Gente que olha de lado e nem tenta compreender. Não há gesso, não há quimioterapia, não há uma TAC, um raio-X, uma ressonância, umas análises que digam que apareceu uma depressão. Não há nada palpável. Não há nada mensurável. Fica tudo num domínio muito abstrato. E quem diz depressão, diz também bipolaridade, esquizofrenia, e outras que tais do foro mental, que se escondem por labirintos misteriosos.

Olha-se por fora e continua tudo igual. Por dentro, é que não. Mas por dentro não é visível. Não se percebe porque é que a outra pessoa quer sossego, muito sossego, silêncio, escuro, vontade de se alienar do mundo, um peso gigante em cima, poucas conversas, uma aflição, uma ansiedade, uma tristeza imensurável, um desespero, uma prostração aguda, falta de ganas para agarrar a vida e vivê-la. E tantas outras coisas, que não parecem ter relação nenhuma com o problema original. Não se percebe como é que apareceu. Ou onde é que apareceu.

Não há células cancerígenas que expliquem. Não há uma queda de umas escadas. Não há neurónios a morrer. Não há nada.

Há sim. Há um trauma. Ou vários traumas. Mas olhamos para a outra pessoa e pensamos que já passámos exatamente pelo mesmo. Ou o nosso vizinho que passou por bem pior. E erguemo-nos. Sem nos encharcarmos em ansiolíticos e anti-depressivos. E a outra pessoa. A tal da depressão. Que não passou assim por tanto, diz que tem a famigerada depressão.

E sem pingo de empatia, dizemos que a culpa é dela. Porque se alguém parte uma perna, tem um cancro ou ELA, é uma pobre alma com pouca sorte. Mas se alguém tem uma depressão é um desgraçado com múltiplas culpas no cartório que quer chamar a atenção.

E custa-me horrores, viver numa sociedade que não consegue olhar para uma doença do foro mental como olha para uma doença de qualquer outra origem. Viver numa sociedade que prefere fechar os olhos e fingir que estas doenças não existem e nunca nos vão atingir.

Eu, indecisa?! Essa agora...

Acabei por encomendar o vestido de que falei, ontem. Foi mais forte do que eu. Uma pessoa, também, não é de ferro, certo? Só que com estas coisas dos saldos, o pequeno pode demorar mais um a dois dias a chegar. Se ele chegar dentro do prazo estipulado fora do período de saldos, chega exatamente no dia que eu quero, se tiver o atraso por causa dos saldos, a coisa já corre mal. A sério, quem me manda levar tanto tempo para decidir uma coisa? Eu sou, de facto, o expoente máximo, o apogeu, o que lhe quiserem chamar, da indecisão. Levo toda uma vida para decidir detalhes minímos.

Como para além de indecisa, também sou incrivelmente chata, decidi ligar para a o serviço online da Zara a perguntar se eles por acaso não têm informações em relação aos prazos de entrega, para além dos que estão no site. Isto é, se eles sabem se as entregas se estão realmente a atrasar por causa dos saldos ou se está tudo dentro dos trâmites normais.

O senhor que me atendeu, uma paz de alma, uma simpatia, respondeu-me a tudo como se eu não estivesse a ser uma criatura incrivelmente chata. E no fundo, limitou-se a dizer-me o que já estava no site, mas naquela voz devidamente modulada que eles devem ser obrigados a fazer. E quanto mais estapafúrdia era a questão (eu tenho uma certa propensão a fazer perguntas parvas com respostas óbvias), mais calma era a voz do senhor. Invejei-lhe a paciência.

Depois de desligar a chamada, cheguei à conclusão, que o senhor, teve toda aquela paciência infinita, de certeza, porque a chamada estava a ser gravada. Imagino que depois de terminar a chamada se tenha virado para o colega do lado e tenho dito:

- Mais uma abécula analfbeta que não leu as informções no site.

Portanto, no fim de toda esta saga, fiquei na mesma. Não sei se o vestido vai chegar a tempo. Tenho estado a controlar obsessivamente o estado da encomenda.

Oh! Well... Mea culpa.

A sério que não é inveja

Eu: Vou cortar o meu cabelo assim.

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Mãe: Não vai ficar assim.

Eu: Porquê?

Mãe: Porque o teu cabelo é liso.

Eu: Não, não é.

Mãe: Mas não vai ficar como o dela.

Eu: O dela não é nem encaracolado nem liso. Como o meu.

Mãe: O dela é assim meio selvagem. O teu não vai ficar assim.

Eu: Mas, porquê?

 

O que a minha mãe queria dizer, mas não disse, porque entratnto demos por terminada esta conversa disfuncional:

Filha, o teu cabelo não vai ficar assim, porque ela é linda e maravilhosa e foi abençoada com uma genética fabulosa. Nela o cabelo fica selvagem sexy, em ti ficava unicamente vagamente despenteado.

 

Nunca gostei da Scarlett. Vá-se lá saber porquê.

Quando somos atacados ferozmente por um bicho

Odeio infinitamente melgas. Odeio. Odeio. Odeio. E não tenho qualquer pudor de as aniquilar. Palma da mão aberta a alta velocidade: Zás! Já foi.

É um prazer imensurável, porque é menos uma neste mundo a dar-me cabo dos nervos. Sim, eu sei, numa qualquer teia alimentar, cadeia alimentar, ecossistema, enfim, o que for, há-de ser um bicho extremamente útil e fonte de equilíbrio. Na minha mente, são só os bichos mais improfícuos e maléficos.

Vejamos:

1. Perturbam-me mentalmente com aquele grito agudo de quam está prestes a despenhar-se contra a minha pele.

2. Perturbam-me mentalmente, porque sei que a seguir ao grito agudo de quem está prestes a despenhar-se contra a minha pele, despenham-se, realmente. E ferram o dente. Ou, o que for. E depois, quais parasitas inúteis, alimentam-se do meu sangue. E como se não bastasse, no final, tudo aquilo provoca uma coceira danada. E inchaço, também.

3. Perturbam-me mentalmente quando me atacam ferozmente na cara. Mais precisamente na pálpebra. Ia tendo uma síncope quando acordei de manhã e vi que tinha a pálpebra inchada.

Series| O tempo entre costuras

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Descobri esta série, que não é propriamente recente, há pouco tempo. E gostei muito.

Passa-se entre Espanha, Marrocos e Portugal e gira em torno de uma modista em 1936 que se torna informadora da Grã-Bretanha.

É uma série espanhola feita em colaboração com alguns atores portugueses.

Ainda só vi o primeiro episódio, o que faz com que a minha opinião não seja propriamente definitiva, mas do que vi gostei. A série só tem 17 epidódios, mas cada episódio tem à volta de uma hora e meia. Uma pessoa fica feliz naquela hora e meia, enquanto acompanha a vida louca de Sira Quiroga (a protagonista), ao mesmo tempo que devora uma tablete de Milka de caramelo (só de pensar, já estou a salivar).

Eu tenho estado a ver em castelhano e quando vi o trailer achei um nada incompreensível (vi sem legendas). Eles falam a uma velocidade estupidamente estonteante e a música de fundo não ajudava muito. Mas isto sou eu, qua não sou normal, e tenho uma dificuldade enorme em perceber línguas faladas, que não o português. Entretanto, o episódio começou, a música de fundo desapareceu, e eu entendi praticamente tudo. Portanto, se eu percebi, toda a gente percebe.

Outro apontamento, extremamente relevante: as roupas. A sério, o guarda-roupa é qualquer coisa. Os anos 30 e os anos 40 foram fabulosos em termos de moda. Dá vontade de entrar lá para dentro, sejá lá onde isso for, e usar aqueles vestidos com aquele ar retro, que mais niguém gosta a não ser eu, e que faz as minhas amigas olharem-me de lado. Oh! Well... É dificil ser-se incompreendida.

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Atentem só o cabelo.

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A máquina de costura. Como não gostar desta máquina de costura?

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O meu vestido preferido.

Pronto, já parei.

Parte boa, também há livro. Não sei se vou avançar para o livro, mas ficou a vontade.

 

(Vamos fingir que não estive quase um mês ausente. Sem posts. Sem sinal de vida. Vou-vos poupar à ladainha de que a minha vida tem sido uma loucura e de que tenho tido pouco tempo.)

Os sonhos e a realidade

Eu tenho sonhos um tanto estapafúrdios. Sem muita lógica e meio desconectados. Quem não? E um dos sonhos mais recorrentes e assutadores que tenho é o de me cairem os dentes. Assim de repente. Não é o processo de queda, não é a dor... Não sei exatamente o que é. Mas sei que é pavoroso. Uma sensação horrível vagamente semelhante à de nos despenharmos ou cairmos em queda livre num precipicio. Um medo infundado, uma sensação de insegurança aliada à fallta de controlo da situação.

Lembro-me de ter contado isto a umas amigas e elas terem achado aquilo só parvo e sem sentido (pois, está bem, não era com elas...). E eu fique a sentir-me meio alien, porque pensava que era daqueles sonhos que toda a gente tem, mais ou menos como o de voar, ser ceifado por uma onda gigante (esse também é pavoroso) ou cair num precipicio. Elas disseram que não. Nunca tinham ouvido semelhante coisa. Até que passado algum tempo, na altura em que ainda havia a Mixórdia de Temáticas do Ricardo Araújo Pereira (acham que há possibilidade de petição para voltar?), uma delas retratou, daquela maneira espetacular que só o RAP consegue, a inutilidade do sono. Um dos argumentos era a estupidez dos sonhos. E qual foi um dos sonhos referidos? A queda súbita de dentes. Obrigada. Afinal não estava sozinha.

Volvidos uns anos, poucos (talvez um ou dois), quando andava apanhadinha por Freud e tive Psicologia no Secundário, descobri que Freud não só dizia que era um sonho recorrente como o explicava. O homem era mesmo iluminado (depois, percebi que não, era só mesmo tarado).

Então afinal o que é isso da queda dos dentes? Insegurança. Tão simples quanto isso. E, até que confere. Não sou a pessoa mais insegura do mundo, mas tenho algumas inseguranças parvas. Acho que toda a gente tem, com exceção àquelas pessoas super resolvidas, sem problemas de qualquer espécie, em suma perfeitas... Ah! Espera... Isso chama-se utopia. Então, sim, acho que toda a gente tem algumas inseguranças.

Isto vem a que propósito? Isto vem a propósito da minha paranóia por Freud, mas também de uma conversa que tive com uma pessoa que me confessou ter este pesadelo, às vezes. Uma das pessoas mais inseguras que conheço com uma opinião extremamente volúvel. Ótima pessoa, mas muito insegura.

Interpretação dos sonhos soa assim meio ilógico, mas a verdade é que neste caso até que bate certo. Não levo à letra, mas achei piada a interpretação que Freud foi dando aos sonhos. A este e a outros. Foi a primeira pessoa a não interpretar de forma mística os ditos cujos. Alguma credibilidade há-de ter. 

O meus problemas de relacionamento com as bibliotecas

Eu sou pessoa que aprecia bibliotecas. Bastante mesmo. É um sitio giro. Silencioso (Ahahah! Vamos fingir que sim… Já nos debruçamos afincadamente sobre este assunto lá mais para a frente). Com livros por todo o lado. O que só por si já é abonatório. Mesmo quando são livros técnicos que versam sobre assuntos tão interessantes como física quântica, por exemplo (dá para perceber que guardo um ressentimento agudo em relação à física desde os tempos de Secundário, não dá?). Mas, agora que começou a época de exames, o pessoal corre todo para biblioteca como quem quer apanhar a última coca-cola do deserto, e vítimas de uma qualquer amnésia súbita, esquecem-se que a biblioteca não é… sei lá, um cabaré. Ora vamos lá por partes.

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1. As bibliotecas são sítios giros. São, sim senhor. Eu já o disse lá em cima e repito. Dá vontade de uma pessoa bambolear as ancas pelo espaço, dar umas quantas voltas nos corredores e deslizar os olhos pelos livros como quem aprecia uma obra de arte. Mas, grande mas, quem se dedicou a projetar bibliotecas lá se terá esquecido que é suposto haver silêncio, e vá de botar soalho bonito que dá um aspeto todo supimpa e coerente com o espaço, mas range. E não é pouco. Uma pessoa toca com a ponta do dedo pequenino do pé no chão e já o chão se abriu numa orquestra sinfónica. Como mudar o chão talvez esteja fora de questão, não sair do lugar fora as vezes estritamente necessárias talvez seja opção.

2. Mais uma vez, a questão premente: silêncio. Por mim podem fazer o que vos der na real gana numa biblioteca. Tudo. Mesmo. Mas em silêncio, claro. Fazer mortais, dançar cha-cha, jogar ao berlinde. Em mute. Que eu sou uma alma por natureza distraída e caso haja alguém que se lembre de fazer qualquer ruído um decibel acima da média, levanto os olhos do que estou a ler e tento descortinar de onde vem o ruído, fico um tanto tempo a analisar a situação, como se me interessasse, e outro tanto tempo a pensar na morte da bezerra. Quando caio em mim, já passou toda uma eternidade. Porquê? Porque alguém fez um ruído maior que o habitual. Não, a culpa não é da minha distração. É da pessoa ruidosa.

3. Eu no ponto anterior talvez tenha exagerado na parte de dizer que podem fazer tudo o que vos der na real gana. Hum… Não podem. Mesmo em silêncio, não podem. Como, por exemplo, atirar papelinhos uns aos outros. Eu sei, há ali uma fase em que está toda a gente prestes a entrar em burn out, e de repente o nosso lado mais racional foge, mas atirar bolinhas de papel uns aos outros não é solução. Palavra que não. Pode parecer divertido e tal, mas não… Digo isto, porque da última vez que passei todo o meu santo dia enfiada numa biblioteca, umas alminhas, dotadas com certeza de uma inteligência acima da média, acharam que engraçado, era porem-se a atirar bolas de papel uns aos outros. E houve ali uma fase em que temi pela minha integridade física. Ainda pensei levantar-me e armar um escabeche, uma coisa assim muito cinematográfica, com direito a gritos e ameaças, mas depois, refleti, e não era bem a minha cena. Deixei-me estar sossegadinha, enquanto gritava impropérios vários para dentro. Entretanto, um deles levantou-se, eu calculei que o moço devia rondar os 100 kg e ter 2m. De maneira que eu com menos de 50 kg agradeci mentalmente a mim própria por ter suportado tamanha parvoíce alheia.

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E é isto, gente. Vão pelos meus conselhos. Se toda a gente utilizar as bibliotecas de forma civilizada conseguimos ser todos felizes no mesmo espaço.

Ás vezes a felicidade alheia aleija

Às vezes acontece. A felicidade alheia aleija. Dói. Faz comichão.

Não é inveja. Não é querer que caia um raio em cima do outro. Que seja atropelado por um camião TIR. Ou tenha um cancro terminal.

Pode continuar feliz. Mas nós também queremos um bocadinho dessa felicidade.

E inevitavelmente chegamos àquela pergunta: Porque é que ele(a) pode e eu não?

É só às vezes, muito raramente. Mas acho que já toda a gente teve aquele momento de comparação aliado a uma certa auto-vitimização. Depois passa. E já não dói, nem faz comichão.

Depois passa e lembramo-nos que grande parte dessa felicidade depende de nós. Soa a cliché, mas é verdade. Muitas vezes.

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Dizer sim ao não

Custa-me horrores responder que não, quando precisam de um sim. E vou dizendo sim. Vou acumulando uns quantos sim e outros tantos não para mim. Porque dizer constantemente sim a toda a gente, é dizer não a nós próprios. Desorganizar a nossa vida, para os outros organizarem a deles.

Mas, caramba, eu sei o que é estar enrascada, com a corda ao pescoço, a precisar de um sim, e toda a gente me dizer o que não quero ouvir. Sei o que isso é. E sei também que, se desorganizar um bocadinho a minha vida, não vem mal nenhum ao mundo de maior, e a outra pessoa vai ficar sem aquele peso, sem aquele entrave.

O que me esfrangalha depois os nervos, sou eu, depois de fazer malabarismos vários para conseguir dizer um sim, vir a pedir um sim àquela pessoa, e ela, sem pestanejar, sem dedicar muito tempo à questão, atirar-me um não. Numa atitude umbiguista de quem não precisa que lhe digam um sim, quando, na verdade, já precisou...