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My cup of tea

"You can never get a cup of tea large enough or a book long enough to suit me" C. S. Lewis

My cup of tea

"You can never get a cup of tea large enough or a book long enough to suit me" C. S. Lewis

Viver a vida no limite

Vesti-me e pensei:

Podia chover. Hoje, não me importava (da última vez também não). Estou com tanta vontade de ir correr como de me enfiar debaixo de um camião TIR em andamento.

Ainda ensaiei uma pequena dança da chuva, bamboleei as ancas na esperança de haver alguma ligação direta entre o grau de movimento do meu rabo e o grau de saturação das nuvens. Com pouca esperança lá me fiz à estrada.

1ª fase

Hum! Que maravilha: o vento na cara, esta sensação boa de se estar a fazer o que se tem de fazer. A sério? Porque é que adiei tanto isto?

2ª fase

Espera. O que é isto? Isto é cansaço, não é? Já me tinha esquecido do pequeno detalhe que as pessoas cansam-se quando correm. Principalmente quando se fica 6 meses sem fazer nenhum…

3ª fase

Ainda só corri 500m e já estou com uma respiração asmática. Parece que me vou afogar. Senhores! Ainda bem que não está ninguém na rua, caso contrário já tinham chamado o 112.

4ª fase

0,5 km

Whaaaat?! Espera aí, eu ouvi bem?! Eu ainda só corri 500m?! Não pode… O GPS deve estar a falhar…

5ª fase

Acho que vou desfalecer. Sinto-me como se me tivessem enfiado a cabeça dentro de água 10 minutos e tivessem acabado de me permitir vir à superfície. Onde é que está o oxigénio?!

6ª fase

1 km

Ia jurar que por esta altura, na melhor das hipóteses, já tinha corrido 10 km. Está certo…

7ª fase

OMG! Uma subida. Alerta subida. Alerta subida. Alerta subida. Sinto-me a ficar com tremeliques.

8ª fase

Espera aí, eu comi antes antes de vir. E se com este esforço todo ainda tenho uma indigestão? Porque é que eu me meto nestas coisas?

9ª fase

Acho que tenho a visão turva. Só por acaso, quando é que chego a casa?

10ª fase

Dói-me por baixo da língua. E os ouvidos. Tanto. Isto deve ser um problema qualquer manhoso.

11ª fase

Cheguei! Cheguei! Cheguei! Deve ser isto que se sente quando se acaba uma maratona. Com a particularidade que não tenho os meus amigos todos a olharem-me com um certo deslumbramento e prestes a abraçarem-me. Tenho o meu cão a olhar-me com um ar perplexo. Já é qualquer coisa.

 

E é isto. Amanhã há mais. Gosto de sofrer. De sentir que aquele pode ser o último minuto antes de me esbardalhar inconsciente numa valeta (nada dramática). É só naquela de não chegar ao Verão e o meu rabo ocupar 10m2 de praia cada vez que me sento.

Eu ia correr, mas começou a chover. A sério que sim.

Estou eu a preparar-me para ir correr. Ponho t-shirt, leggings e afins em cima da cama quando, assim do nada, começa a fazer uma ventania e a chover torrencialmente (pronto, a chover torrencialmente também, mas a chover). Eu olho para a janela, arreliadíssima da vida. Logo agora, que eu ia correr, havia de começar a chover, e a fazer vento. Ainda pensei pegar nos ténis e fazer-me à estrada na mesma, mas como está bom de se ver, sou uma pessoa com tendência a constipar-me. Se apanho frio e água, fico de cama em menos de nada. Pus de lado a hipótese (quem é que estou a tentar enganar?! Nem sequer tinha chegado a pôr essa hipótese...), inconformadíssima. Francamente, que pontaria desgraçada.

Sobre correr e outras coisas

Um dos objetivos para o mês de Outubro era recomeçar a correr. Eu passo a vida a tentar recomeçar a correr e a fazê-lo de forma assídua e regular. Qual quê?! Sou uma lontra inveterada. Não diria lontra, mas é uma inércia tramada que me obriga a ficar paradinha comodamente sem grandes movimentos.

Eu não corro para ser magra, nem para ir mostrar este corpo fabuloso para a praia. Eu nem gosto muito de praia. Eu corro para manter a pouca sanidade mental que tenho. Corro para esquecer, corro para não lembrar, corro para não enumerar tudo o que gostava de ter feito e não fiz durante o dia, corro para não relembrar mentalmente tudo o que ainda tenho para estudar, corro para ser só eu, a estrada e a música. O problema é recomeçar.

Se tinha dito aqui que ia pegar outra vez nos ténis e voltar ao batente, ia mesmo. E fui. Já o mês ia a meio, quando recomecei. Eu podia dizer que foi ótimo. Que senti as endorfinas todo o caminho a atuarem. Que me senti feliz. Mas, não. Eu sei o que isso é. Já senti essas sensações todas, mas desta vez não senti nada. Senti-me uma ratazana sem força de vontade, a correr em câmera lenta, pesada e cansada. Acabei a morrer, literalmente, depois de ter corrido uma distância mínima a uma velocidade vergonhosa. E pensei: "Onde estás tu? O que é que te aconteceu?". E ainda não voltei a correr. Isto podia ter tido exatamente o efeito antagónico àquele que teve. Podia ter-me feito continuar a ir para a estrada todos os dias e correr. Mas entre o estranhar e o entranhar há um caminho penoso que não me apetece percorrer. E eu sinto-me mal por isso. Se há coisa que eu raramente faço é desistir. Sou persistente e quando meto uma coisa na cabeça não gosto de deixar para lá só porque sim. E eu meti na cabeça que quero correr.

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